segunda-feira, 16 de novembro de 2009

♥; cadência

Carrego comigo um cordão prateado. Pendurado no pescoço. Não é apenas um cordão com fios trançados. Nele, encontra-se um coração de cristal. Pequeno. E que, vezenquando mostra todas as cores que eu quero. É como um talismã. E é, de fato. Na agenda, a cada data especial, um trevo de quatro folhas seco. Culpa sua, inteiramente sua. Completamos agora mais de setecentos dias juntos. Os especiais, marcados com os trevos de quatro folhas. Sei lá, é pra dar ainda mais sorte. Na carteira, uma figa e uma pimenta. sabe como é, né? No pulso, fitinha de algum santo, com direito a três nós e três pedidos. Eu fazia um só. Se precisasse, usava os outros mais tarde. Sei que não preciso. Sussurrando ao pé do ouvido, o som da tua voz. Doce. Arrepiando minha pele, o toque da sua. Teletransportando-me, teu perfume. No céu, estrelas. A estrela do nosso beijo, a estrela do nosso abraço, a estrela do nosso encontro, a estrela da nossa união... Uma em especial chamou-me atenção: era cadente, a dita. Com a cor dos teus olhos. Fechei meus olhos e fiz um rápido pedido. E logo que os abri, ali estava você.
Conclui então que sorte era apenas uma questão de saber quais os braços que te acalentam.


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fikdik: talvez o nosso especial esteja por aí. numa estrela cadente.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

• então, por que não consegue enxergar?


"Existe algo em mim que ainda me faz querer você. Não sei exatamente se a) existe algo em mim que faz com que eu te queira ou se b) existe algo em você que me pertence. A verdade é que por mais que eu corra, todas essas lembranças estúpidas me perseguem. E mesmo que eu apagasse tudo de você na minha vida, ainda existiriam essas malditas lembranças, que só fazem surgir na hora errada. No momento em que eu acho que superei, que esqueci, que estou bem melhor. Não é verdade. Nós sabemos o que acontece. Nós sabemos o motivo. Não sei bem de quem foi a culpa por tudo isso acontecer, mas talvez devesse mesmo acontecer. Logo, não é culpa de um de nós. Sei que você acha minha memória estranha e assustadora, mas não existe como eu simplesmente esquecer de cada detalhe. Você já me disse tanta coisa, já me prometeu outras tantas... E sempre age de uma forma tão doce quando está aqui. Não sei se tudo realmente faz sentido, se tudo isso realmente se une de alguma forma que tenha um significado no final. Aliás, eu nem sei como será esse tal final feliz que todos dizem. Nem sei quando o nosso vai chegar. Me diga: você pode apressar as coisas, por nós? Talvez não seja certo a forma com que lhe testo algumas vezes, mas eu preciso disso. Tenho que ver se tudo isso realmente vale a pena. Eu preciso sentir um detalhe desse tal afeto pra continuar. E na verdade, às vezes, nem sei o que me leva a continuar. Existe um impulso bem maior, algo quase que vital, que me faz sempre seguir e até ceder. E ainda tenho a coragem de dizer que é tudo como quero. Não é. Nunca foi. Sempre foi você. Clichê e brega, mas seu olhar me hipnotiza. E só de lembrar dos seus grandes olhos sobre mim, tenho vontade de tê-los novamente, ali, daquela forma. Seu colo é a coisa mais confortável que tenho, é onde me encontro. E seu cheiro me segue apenas por onde quer que eu passe. É tudo tão notável. Então, por que você não pode enxergar? Seria tão fácil, se quisesse, mudar toda essa angustia aqui dentro. Bastava só uma pergunta sua, bastava você dizer duas ou três palavras. Mas acho que preferimos agir pelo jeito mais complicado, não é? Então, diga-me algo: apenas, diga-me."


Uma lágrima rolava de sua face, manchando talvez uma ou duas palavras.
Guardou a carta dentro de um livro velho da estante. Deixou o telefone ao lado, apagou a luz. E dormiu. Para tê-lo em seus sonhos.

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ps: mil desculpas pela demora secular, hihi.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

- há um segundo, tudo estava em paz.



A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. Sabe quando vai dar?

Mas, de vez em quando, as coisas mudam assim. De uma hora pra outra. A vida é tecelã imprevisível. Sinceramente...

E tudo começou bem antes. Talvez há uns anos. Faz um tempo, eu sei. Porém nunca foi algo concreto, digamos. Ao seu ponto de vista, qualquer mínimo detalhe era obstáculo. Não que tenham sido levados em consideração para aquelas vezes, mas é bom não analisarmos tanto assim.

Houve um dia em que tudo foi mais além. O interesse, as propostas, as palavras... Deu vontade de ficar mais tempo junto, deu vontade de levar essa história até o fim.

De alguma forma, eu quis levar até o fim. Por nós dois. Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. E talvez cada detalhe transformava a magia em um futuro perfeito.

Na madrugada, a música ao vivo trouxe sonhos bons: "Cuide bem do ser amor, seja quem for..." Paralamas caia bem naquele momento. Faltava só você.

Foi assim, foi acreditando nisso, que deixei com que você descobrisse o mais profundo e íntimo de mim... Como não havia permitido que ninguém antes o fizesse. E você sempre soube que era isso, que era o único.

Talvez não exista um motivo real e lógico, ou talvez nem exista sequer um motivo, mas, meu Deus!, como você me dói de vez em quando. E como me dói ultimamente. E já não sei mais agir diante da sua indiferença, a não ser com uma indiferença ainda maior. E orgulho. Não é que não doa... Mas a falsa sensação de alívio faz com que eu me sinta quase tão bem como deveria estar. E disfarça do mundo.

Recuso todos os toques e ignoro todas as tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela.

Sorrio. Como se fosse verdade, como se não passasse de um sonho ruim. E volto a caminhar sem olhar para os lados, só para não sentir que você já não está ali. E evito olhar para mim, dentro e fora, para não sentir que agora somos só lembrança e marcas.

O fim da tarde chega e nem dou conta, e nem quero notar. Daí penso em coisas bobas quando, sentada na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você.

Às vezes, quando ainda valia a pena, eu ficava horas pensando que podia voltar tudo a ser como antes.

E não me sinto no direito de colocar um fim nisso sozinha, pois ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente.


"Confesso que esperava um sorriso ou qualquer outra manifestação dessas de afeto. Mas não houve nada disso".



[frase final e itálicos: caio f]

domingo, 11 de outubro de 2009

- doses.


Era só mais um dia. Comum, poderíamos dizer. Tedioso. Mas desde que abriu os olhos, as surpresas começaram a surgir. Detalhes simples e que poderia passar despercebido aos olhares daqueles que não param nunca ou daqueles que não enxergam o óbvio. Ganhou, logo de manhã, uma rosa, ao descer do ônibus. Um bilhete, um convite. Talvez nada lá muito surpreendentes. Bilhetes e convites ainda eram normal, certo? Um par de horas mais tarde, uma coincidência... Algo impressionante demais para ser considerado coincidência, mas era assim que chamavam. Ela, distraída, só fazia sorrir e achar graça. Ao chegar em casa, um presente. Inesperado, mas acontece. O sol estava exatamente no centro do céu e ela fazia parte das pessoas que eram guiadas por ele. Antes de sair, ainda teve tempo de descobrir que foi pauta da conversa dos amigos, que confortaram seu ego sem ao menos perceberem o que faziam. E logo, saiu. Naquela fila pro ônibus, na rodoviária, ouviu alguém comentar sobre seus olhos. Algo como se eles possuíssem a forma de um sorriso. "Olhos que sorriem!". Corava e sorria. Revirava a bolsa para achar um espelho qualquer. E o viu, ali, exatamente atrás dela. Num instante, ele a abraçava pela cintura e a fazia rir, dentre palavras e brincadeiras. Houve um ou outro arrepio ali, bem na espinha, mas era normal ela sentir todas essas coisas quando seus corpos se encostavam. Afinal de contas, estamos falando daqueles dois. Aqueles que só sabiam conjugar verbos na primeira pessoa do plural. E riam, e iam, e faziam todo o mundo esperar, mesmo que o tempo fosse pouco, era tudo como tinha que ser. Sempre. E ela se lembrava exatamente de cada forma, de cada música, e ele de cada palavra, data e nota tocada. E mesmo de madrugada, ele ligava só para que ela ouvisse a canção daqueles dois. Era a forma que tinha para dizer o quanto se lembrava dela. E no final, dizia algo que, para aqueles dois, valia mais que qualquer coisa. E ela sorria, e repetia a última frase dele.


Três palavras. Sete letras.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

- parte minha.

Era quase como nossa rotina dos finais de semana. Era quase como as outras vezes em que fui te visitar. Quase. Faltava algo. Eu nem podia dizer que estava doendo, que morreria de dor, pois não doia. Só existia ali um grande buraco e todas as sensações do mundo se resumiam em indiferença.
Lembro da primeira vez em que fomos para sua casa. Eu mal havia saido do ônibus e você estava ali, na porta, de braços abertos para me pegar no colo assim que eu colocasse meus pés no último degrau. Eu me sentia tão menina! Você até abria a porta do carro pra mim, como nos filmes. Lembro que ficávamos em sua casa, até o meio da tarde, juntos, deixando que o impulso trabalhasse por nós. Logo depois você me levava até uma praça para que eu pudesse ver o pôr-do-sol daí. Não que existisse, tecnicamente, uma diferença lógica e notável. A não ser, claro, pelo fato de que você estava ali.
Não existia mais nada além de nós nos momentos em que ficávamos juntos. Lembro exatamente da primeira vez que vi, pela janela, a lua cheia cercada de estrelas. Estava deitada em sua cama, com você. Era tão normal pra você, uma cena tão típica. E ríamos juntos de qualquer canção que você sussurrava no meu ouvido. E eu adormecia.
Nós arriscamos. Foi a coisa certa por tanto tempo de nossas vidas. E depois, quando eu tinha que ir embora, você me levava até o terminal, me seguia na fila, me fazia conferir cada detalhe da passagem, conferia o troco e o guardava por mim. Sempre soube o quanto eu era distraída. E eu sempre, sempre deixei você cuidar de mim dessa forma. Então você me guiava até a nossa plataforma. Você me guiava até a plataforma 6 e me fazia conferir tudo. E ficava lá até perder o ônibus de vista. Trocávamos palavras todos os dias, nem que fosse uma só, à noite, por mensagens no celular.
Lembro de todas as brincadeiras, todos os testes, da forma com que você sempre me entendia e eu nunca compreendi como você fazia isso. Da sua preocupação sobre quando me atrasei, de como me suportou quando descontei toda TPM em você. De como me fazia rir e de como me envolvia em sua pele morena e eu seu corpo esculpido. De como me acalmava com o simples ato de sorrir.
A melhor época de nossas vidas. Tínhamos tantos planos! Faltavam tantas coisas para fazermos juntos. Abrimos mão de tantas coisas pelo outro e sempre demos um jeito, mesmo quando pensamos que não, sempre havia uma saída.
É diferente agora. Falta uma parte de mim que não dói, que torna tudo tão indiferente. Cheguei até a nossa plataforma e falta algo. Olhei tantas vezes para trás no caminho, para conferir, inutilmente, se havia alguém. Mas você não veio.
Você já não está aqui, não esperará perder o ônibus de vista para ir embora.
E definitivamente, falta algo.

 
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Ela bate asas. E voa. by Franciellen Carneiro. is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.